terça-feira, 15 de março de 2011

A chaminé







No cimo do casario que compõe o monte alentejano, surge a chaminé.
Destaca-se na paisagem, que é de duros contrastes, extrema e verdadeira.
Uma tela de Deus, segundo a poetisa.

Imponente, segura, tranquila.
A chaminé concorre com as árvores retorcidas que rasgam a linha do horizonte.
Árvores solitárias, sofredoras, resistentes. Maestrinas de uma orquestra silenciosa.

As árvores, na planura amarela e castanha, por vezes verde.
A chaminé, naquele cabeço que se eleva da planície,
Sumptuosamente erigida a partir do casario branco e vermelho.

Acolá, a estrada empoeirada que nos leva à porta da casa de barra azul.
Madeira pintada, postigo sempre aberto.
Lá dentro, o contraste fresco do lar e o cheiro humano.

Na cozinha, onde a grande mesa com bancos corridos ocupa lugar central,
Começa a chaminé. Larga na base, aberta ao céu.
Indiferente à cor da tela de Deus, a chaminé é ponto de encontro obrigatório.

Ali, o lume feito de azinho alimenta tertúlias e paixões.
Trocam-se segredos, amores e desamores,
Histórias antigas, histórias recentes, mitos longínquos, esperanças futuras.

Traçam-se planos de combate ao descampado, partilham-se saberes práticos.
Bebe-se água com sabor a barro, por um cocharro comum.
Em forma de concha, como os seios de uma mulher.

As cadeiras de palha e os banquinhos de tripé, trabalhados pela mão dos homens.
O sabor do pão e da terra, confeccionados pela mão das mulheres.
Todos presentes. Por vezes uns. Por vezes outros. A hierarquia nunca é esquecida.

Entrevistas e conspirações, debates intelectuais e mexericos, juras de amor e traições.
Grandes conversas, pequenas conversas. Conversas que podem mudar o mundo.
Ali, debaixo daquela grande chaminé, não há frio, não há calor. Há comunhão.

É assim o Alentejo.

FC/Abril2009

1 comentário:

  1. Texto lindíssimo: com alma, sentimento...
    Só podia ser escrito pela Fernanda!

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