terça-feira, 12 de setembro de 2017

A lágrima

















Reúnem-se os cientistas, os economistas, os políticos e os pastores.
Correm as televisões, animam-se as populações.
É a poluição! Um mal-entendido! Erro de legislação! Castigo divino!

Tudo é urgência na parafernália dos jornais,
onde gritam as gordas parangonas, em cuidado design:
«A Terra-azul é agora vermelho-Marte. Falta água por toda a parte!».

O Ártico está sem norte e os rios são leitos de morte.
O planeta perdeu a cor, o humor, os cavalos-marinhos e os cavalos-vapor.
O mar é agora sal, cárcere do tempo e do cloreto de sódio.

O mundo está pálido, asséptico, bradipéptico, amoral.
Esbraceja o incrédulo, em desespero último:
«Libertem o cloro, o sódio e os seus iões! Não nos tirem as paixões!»

Quem foi que nos roubou, afinal?
Quem nos quer tanto mal?

Diz-se à boca pequena que foi alguém que chorou.
Ninguém viu ou ouviu. Ninguém reparou.
O recato foi total.

Bastou uma lágrima, uma lágrima apenas.
Pequena gota salgada que, por estranho fenómeno higroscópico,
toda a água desviou.

Da Terra nada mais se sabe. 
Marte-Azul é agora o lugar dos amantes e dos poetas,
onde a história recomeça.



FC/Setembro2017

(Ilustração de André Ruivo)





Sem comentários:

Enviar um comentário