quarta-feira, 29 de abril de 2026

«Saber ser para poder crescer»

 




No âmbito do projeto “Estados Gerais da Bioética”, uma iniciativa do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), realizou-se, no passado dia 28 de abril de 2026, o Fórum Regional de Évora, dedicado ao tema «Vulnerabilidade na Terceira Idade».

Tive o prazer de apresentar o meu testemunho enquanto cuidadora, partilhando a minha experiência num espaço de reflexão promovido por um dos mais relevantes órgãos nacionais na área da ética.

A intervenção  foi acolhida com apreço pelos presentes, tendo inclusivamente motivado um corajoso pedido de desculpa por parte do representante do Centro Distrital de Évora da Segurança Social, em nome do Instituto da Segurança Social, I.P., que reconheceu que algo não correu como deveria no processo que levou ao encerramento do Lar de Garvão. Agradeço as palavras que me dirigiu publicamente.

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1. Sabermos morrer

Ser velho não tem um único significado e não é apenas uma questão biológica, embora o tempo seja inevitável. A velhice faz parte do ciclo natural da vida. É, muitas vezes, associada ao declínio físico e à perda de vigor, mas não se esgota nisso.

Pode ser um tempo de reflexão, de maior liberdade interior e de distanciamento das urgências da juventude, mas também pode ser um tempo de vulnerabilidade crescente, onde convivem fragilidade, prudência e uma sabedoria que só a vida ensina. Por isso, é também uma questão de identidade, experiência e sentido.

Porque seguem à frente na régua do tempo, os mais velhos são, muitas vezes, a nossa bússola ética. É com eles que aprendemos a lidar com o medo, com a incerteza, com o essencial da vida. A transmissão de valores acontece por proximidade, através do afecto, dos actos e das histórias contadas de viva voz. A sua última lição — claramente a mais difícil — será a de «sabermos morrer». Essa só a compreenderemos verdadeiramente, e precisamos estar muito atentos, se vivermos com eles o momento da morte.

Os meus pais cabem em todas as descrições anteriores e tudo o que eu aqui venho dizer, deles aprendi. O meu pai tinha Alzheimer e morreu em Julho passado, em casa, acompanhado pela família. A minha mãe, com 94 anos e com a locomoção muito limitada, encontra-se actualmente num lar.

 

2. A valsa lenta da dependência

A medicina moderna trouxe consigo um paradoxo: vivemos mais tempo, mas nem sempre vivemos melhor. A morte pode tornar-se um processo longo, uma espécie de “profundis valsa lenta”, para usar a expressão de José Cardoso Pires.

Nestes casos, a morte deixa de ser abstrata. Torna-se concreta, ganha peso, proximidade. Sabemos o fim da história. Vivemos com isso todos os dias — nós, mas sobretudo eles. E essa é uma experiência difícil de compreender a partir de fora.

Neste ser-para-a-morte (conceito inspirado em Heidegger), que pode demorar anos, a dependência instala-se. Torna-se exigente, muitas vezes acompanhada de perda de qualidade de vida, não só para quem vive essa condição, mas também para quem cuida.

E é aqui que somos desafiados a puxar pelo afeto, imaginação, literatura, filosofia, os amigos, até o ginásio, o que for, o que tivermos à mão, para encontrar forma de aliviar a dor. A nossa e a deles. Para encontrar forma de respeitar a dignidade e a integridade. A nossa, mas sobretudo a deles. 

Numa sociedade centrada na autonomia e na produtividade, a vulnerabilidade tende a ser marginalizada. Vemo-nos sozinhos. Nós e eles. Vemo-nos obrigados, de modo próprio, a encontrar espaço e tempo nos ritmos acelerados e exigências externas, e também a ter o dinheiro necessário para poder acompanhar justa e plenamente os nossos mais velhos.

Optámos por manter os meus pais em sua casa o mais tempo possível. Embora mais exigente, pareceu-nos a melhor solução. Mas cuidar dos pais em casa é, paradoxalmente, a opção menos apoiada pelo Estado. Não há alívio fiscal para quem contrata cuidadores de forma regular (contrato de trabalho formal declarado), e o Estatuto do Cuidador Informal, criado em 2019, fica muito aquém do que seria necessário.

 

3. A invisibilidade perante a rigidez das instituições

Após a morte do meu pai, e por circunstâncias várias, vimo-nos obrigados a institucionalizar a minha mãe. À angústia de encontrar o lugar adequado, soma-se a indisponibilidade de vagas — uma realidade difícil de compreender num país envelhecido. A minha mãe passou por um lar em Beja antes de ser acolhida no lar da sua vila, em Garvão, mas a sorte não chegou a um mês. O que se seguiu expõe fragilidades do sistema que importa discutir num plano ético.

No domingo que antecede o Natal, o Instituto da Segurança Social determinou a retirada dos utentes do lar, que foi realizada durante a noite e em condições que considero profundamente indignas. Na noite anterior, tinha ocorrido um crime grave entre utentes. Graças ao empenho dos funcionários, poucos idosos se aperceberam do sucedido; porém, na tarde seguinte, sem comunicação prévia às famílias, foi decidido encerrar a instituição, procedendo-se à retirada dos utentes e dos seus bens.

Os idosos foram mantidos durante mais de cinco horas na sala, sem informação e sem acesso aos seus quartos. Foi a minha mãe quem me ligou por volta das 19 horas, informando-me que o lar ia encerrar, sem dispor de mais detalhes. Fui eu quem tentou contactar os responsáveis pela operação, a partir de Lisboa, manifestando a minha discordância relativamente à retirada da minha mãe, sem que tivesse sido ouvida.

Já depois da meia-noite, os idosos foram retirados com o apoio dos bombeiros. A minha mãe saiu sem agasalho adequado, numa das noites mais frias do ano, tendo chegado ao destino, em Beja, já de madrugada. Os seus pertences, incluindo medicação, foram enviados apenas no dia seguinte, em sacos de lixo.

Não houve incêndio, nem catástrofe natural, nem situação de saúde que justificasse aquela urgência. Tratou-se de um encerramento administrativo.

O que aconteceu expôs pessoas extremamente vulneráveis a um desgaste físico e emocional severo e levanta uma questão inevitável: que valor é efetivamente atribuído aos idosos pelas instituições cuja missão é protegê-los?

A situação foi posteriormente objeto de queixa apresentada às entidades competentes. Apresentei queixa formal à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Ramalho; à Secretária de Estado da Segurança Social, Susana Filipa Lima; e ao Presidente do CD do Instituto da Segurança Social, I.P. (ISS), Pedro Corte Real. Dei igualmente conhecimento às forças políticas locais, informei a comunicação social e tornei pública a queixa nas redes sociais.

A reação das pessoas que tiveram conhecimento foi de indignação. Das entidades competentes, apenas o Instituto da Segurança Social respondeu, de forma lacónica, considerando que tudo decorreu dentro da legalidade e num contexto de emergência, sem indícios de atuação dolosa, arbitrária ou desproporcionada.

Admitindo essa resposta, levantam-se as questões: Bastará a legalidade? A eventual conformidade com a lei esgota a avaliação ética da situação? A eventual irregularidade administrativa, que já existia muitos meses antes, por si só, não deveria ter sido suficiente para evitar este desfecho? E a dignidade das pessoas idosas? E o dever de proteção de pessoas especialmente vulneráveis? E o dever de informação aos próprios e às suas famílias?

As questões são muitas, mas deixo as que considero um bom ponto de partida: O que tudo isto diz de nós, enquanto sociedade? O que estamos dispostos a fazer para que situações deste tipo não se repitam?

 

4. O meu pai

Penso nas palavras do meu pai, ditas numa fase já muito avançada do Alzheimer, num dia em que manifestou gratidão pelo que a vida lhe tinha oferecido.

Surpreendeu-me, não me surpreendendo, com a mais bela explicação sobre a importância do amor (ele referiu sentimento) e do respeito. O sentimento, disse ele, é o que nos define e o respeito, disse ele, é o que nos orienta. E explicou-me que a vida é uma caminhada que não se faz sozinho. Sozinhos crescemos com muito mais dificuldade. É o ajudar que nos faz crescer, que nos lança para diante. Concluiu com um sorriso: é preciso saber ser para poder crescer.

Fernanda Cunha


https://www.cnecv.pt/pt/noticias/forum-regional-de-evora-a-vulnerabilidade-na-terceira-idade

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Na barra do tribunal

 















A verdade individual masculina, formada num sistema que a reconhece e valida, tende a confundir-se com a verdade dominante, assumindo o caráter de um olhar neutro ou universal sobre a realidade. O ponto de vista masculino não se apresenta como uma perspectiva entre outras, mas como a própria verdade em si. 

A verdade individual feminina, por sua vez, emerge da experiência do corpo, da vulnerabilidade, da memória afetiva e do silenciamento histórico. Expressa-se sobretudo no testemunho do vivido, resistindo à lógica do poder, da afirmação e da competitividade que marcam o discurso masculino.

A verdade judicial, chamada a arbitrar, procura ser objetiva, universal e fundada em normas e provas. No entanto, carrega inevitavelmente os vieses do contexto social que a produz. O que se apresenta como verdade perante o tribunal é, muitas vezes, a cristalização institucional de uma visão masculina do mundo. 

Enquanto as verdades masculinas não precisam justificar-se, as verdades femininas, tratadas como subjetivas ou emocionais, exigem comprovação segundo as normas e categorias que o sistema reconhece como válidas, numa linguagem jurídica que não as acolhe em sua totalidade. 

O choque entre essas verdades não é apenas narrativo, mas ontológico. Trata-se do embate entre o ser que fala e o ser que é autorizado a ser ouvido. A peça «À Primeira Vista», escrita por Suzie Miller («Prima Facie») e interpretada com intensidade arrebatadora por Margarida Vila-Nova, deixa-nos esta preciosa reflexão.

A justiça não é apenas uma questão de direito, é também uma questão de reconhecimento. Enquanto o machismo continuar a moldar o espaço do dizer e do crer, a verdade permanecerá um território desigual, onde o feminino ainda precisa provar o que o masculino apenas declara.

(fc/11nov2025)

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Aos pinóquios do futuro nunca crescerá o nariz


 














Talvez o ChatGePeTo venha a construir pinóquios inteligentes, capazes de nos responder em tempo recorde a questões categóricas sobre a vida e sobre os factos, mas serão eles capazes de compreender as nossas emoções, as nossas expressões, o nosso olhar? Não creio. Não há alma nem abraço nos bits e nos bytes.
Serão estes pinóquios capazes de rebeldia, a condição necessária para o crescimento, para a complexidade e para a distinção? Não creio. Não há dúvida nos bits e nos bytes, apenas obediência ao mercado de consumo em série e ao afunilamento algorítmico.
Será o tempo-recorde das respostas digitais uma vantagem para o que buscamos? Não creio. A resposta imediata não permite o ajuste ao inesperado e não traz vantagem evolutiva.
O ChatGePeTo é uma novidade, mas será ele capaz de trazer novidade? Também não creio. Não há inconsciência nos bits e nos bytes, tudo será uma cópia aborrecida do que já conhecemos.
Os pinóquios do ChatGePeTo nunca serão meninos de carne (arte) e osso (ócio). Falta-lhes o jogo bioquímico das sinapses, falta-lhes pele.
fc.


domingo, 1 de junho de 2025

Cuerpo, Alma e Raíz … … ou a "rístina ânsia dionisíaca"
















Sentir

O compasso que vem das margens do tempo,

Dos pueblos que choram, em silêncio.

Demanda de corações antigos –

árabes, judíos, gitanos, andaluces.

 

Sentir

taconeo firme na terra molhada,

Sobre el dolor, la rabia, el miedo e la muerte.

Cuerpo de sangre em cante jondo,

Pase de pecho, dança total.


Sentir

 ¡Sí! ¡Somos!

De corpo inteiro, de sangre entera! ¡Somos!

Na vida sacra e na sombra da morte! ¡Somos!

Em contraluz e em contratiempo! ¡Somos!

¡Olé!

 


À Rocío, Margarida, Teresa e todas as Azules, pela oportunidade do espírito flamenco –

uma dança crua, visceral e ancestral, com raízes que atravessam línguas, terras e dores.

 


sexta-feira, 28 de março de 2025

Os Sentimentos

 












O Sublime foi o tema da sétima de dez sessões do ciclo de conferências dedicado aos Sentimentos, ou à maneira como cada um de nós tem acesso à vida, aos outros e a nós próprios, através da batuta de António de Castro Caeiro, nas sempre diferentes salas do CCB. Um roteiro sobre a subjectividade, o lado que nos vem do futuro como promessa, sem pretensão à verdade mas que, na verdade, é o que de mais objectivo temos no acesso ao mundo que nos desafia através do érōs e da controvérsia. António Damásio foi chamado a dizer que tudo o que nos contraria deixa lastro e que a consciência distendida do sentimento de si não admite nenhuma força de bloqueio, nem a morte. Agrada-me esta liberdade, que será o tema seguinte, no mês da revolução.

Ao longo dos últimos meses, António de Castro Caeiro foi dando ao conceito, espantando-nos com o movimento de resistência ao adormecimento que nos oferece a filosofia. Trouxe, como prova, a voz de outros filósofos. E como a filosofia e a literatura se tocam, trouxe também escritores. Jorge Luís Borges acredita que a literatura e a filosofia surgem do espanto perante o real. Se a permanência é onde somos, o tempo matará o espanto?, pareceu-me ouvir, ou perguntei eu, de mim para mim, enquanto o mestre prosseguia. Talvez não, porque cada instante tem a possibilidade dupla do nascimento e da morte, ouvi-o dizer. Por isso, e também porque cada experiência depende da forma como cada um habita o espaço e o tempo, não posso tomar como universal a verdade de Sartre, para quem o viver é sempre um perder.

Os gregos entraram-nos sentimentos adentro e ficou-nos o desejo de querer saber mais, nós que temos a mania de querer tudo. E se o prazer for mau?, questiona Sócrates, no desejo de chegar à questão seguinte. Ovídio não responde a Sócrates, mas indica-nos caminhos para a resposta, nas suas obras. Se somos no tempo, como defende Heiddegger, então o sentido da vida tem a lógica da antecipação, do desejo. Com o futuro a deliberar. E com espaço para a decepção, já agora. O desejo é imposto pelo exterior, precisa do corpo para se converter em conteúdo mundano e tem uma lógica de insaciedade ­ – ou adicção – se não houver compreensão, vai-nos dizendo Caeiro. A lógica do desejo termina com o prazer, que só será bom se for compreendido. Ser servidor do desejo é redutor, pois somos mais do que a nossa comichão, diria Sócrates.

Ira, fúria, cólera, raiva … sim, somos atmosféricos e temos um campo de forças para lá das fronteiras do nosso corpo, sobretudo se estamos irados. Somos reactivos, como Aquiles ou Hamlet. Sobre a ira, sabemos que é um desejo acompanhado de dor e que a partir dela não se constitui qualquer sentido ou controle sobre o outro. Mas porque somos animais com capacidade para o sentido, quando caímos em nós, damo-nos conta que caímos fora de nós – (ekstasis).

Nietzsche teve a palavra, Aristóteles também, mas é São Paulo quem vem em nosso socorro: «o amor não se ira facilmente». Sempre suspeitei do poder do amor. Na ausência do amor, talvez a nostalgia se imponha. Aprendi que não é um termo grego, mas é composto por dois termos gregos: nóstos + álgos (regresso a casa + dor). Na sua finitude, os gregos são nostálgicos, para eles o passado está adiante e o futuro lá atrás. E para nós? 

Ouvimos Rilke, Kant, Hölderlin e Bernardo Soares («Sim, outrora eu era daqui…»), mas foi Novalis quem me encantou, com a definição de filosofia. Diz ele que «a filosofia é a saudade de casa, um impulso para estar em casa em toda a parte». Caeiro lembra-nos que a forma inaugural, a tal casa, acontece apenas uma vez. A presença do passado, tal e qual ele é, não existe, pois o futuro repete-se, incapaz de nos devolver o passado. O futuro é o objecto da nostalgia. Mas, acrescenta o mestre, em cada instante poderá constituir-se a possibilidade nostálgica do momento, que é, pasme-se, a possibilidade de princípio, ou seja, aquilo que procuramos.

E surge a melancolia, um fenómeno da existência medido, segundo os gregos, pelo peso dos quatro humores – sangue, bilis amarela, bilis negra e fleuma – que variam ao longo do ano e com a idade. Tal tristeza traz-nos a questão: porquê? Talvez Platão e a sua excentricidade nos possam ajudar. Ouvimos. Mas e a tristeza, esse esvaziamento de sentido, essa desocupação, essa retenção do tempo? «Ah, isso! O relógio da vida parou agora mesmo», diz-nos Rimbau... 

A melancolia é simultaneamente som e fúria e vazio. Parece-nos ser um fardo, se nada fizermos para o evitar. Caeiro refere algumas tentativas, como a interrupção (horário organizado em horas e dias úteis e inúteis) ou a fuga para diante, como acontece hoje em dia com a euforia e a embriaguez desmesurada. A oração é a solução das ordens religiosas para o vazio e a monotonia. Belo truque. Talvez a criatividade nos possa ajudar. Ou a filosofia, pois a possibilidade do tempo é a possibilidade da filosofia. Cada sentimento traz consigo uma chave para a resolução, um sentido, acalmou-nos o professor, dando-nos esperança.

A ideia de que o contrário do esvaziamento do tempo é o seu preenchimento agrada-me. Talvez possa responder à tristeza com a alegria perante o sublime das pequenas coisas. Uma reflexão sobre o sublime impõe-se em tempo de crise.

Para o sublime, Caeiro convidou Longin, Homero, Kant, Aristófanes, Rilke, Viggo Borg e Philip Roth. O sublime acontece no instante em que vemos algo que nunca havíamos visto, que nos provoca perplexidade, causa espanto, nos assombra e nos deixa imobilizados. Surge como se fosse uma revelação. Kant, por exemplo, põe-nos em contacto com a natureza de carácter extraordinário, como os oceanos, os ciclones, as montanhas, não no que são mas como nos aparecem. Mas mais interessante é o alerta que nos faz relativamente à diferença entre o Belo e o Sublime. O primeiro está circunscrito às fronteiras de um dado objecto, seja da natureza ou artístico. O segundo não está aprisionado a nenhum objecto, não tem forma, é imensurável, transcendente, angustiante e extasiante. Provoca uma inibição de forças. A mente é, alternadamente atraída e repelida, sentimo-nos envolvidos, contaminados por qualquer coisa que excede os dados materiais. «Sente-se uma ansia de ir até ao infinito», afirma Kant. Não se trata de um objeto dos sentidos, mas de uma cadência, uma vibração da alma, diz-nos Caeiro.

Schiller também procurou compreender como o sublime afeta as emoções e a razão humana. Para si, sublime não é apenas uma questão de grandiosidade ou beleza, é também uma experiência de elevação moral e espiritual, que nos conecta com algo maior do que nós mesmos. O sublime liberta enquanto o belo nos aprisiona. Subitamente e não gradualmente. 

Longin entende o sublime como grandeza do pensamento: «Nem mesmo o universo inteiro é suficiente para o alcance do pensamento humano». Já para Rilke, o sublime está nas pequenas coisas que para o comum dos mortais é banal, mas para o poeta não. O poeta vive como um desconhecido no vão da sua própria casa. O poeta coincide com cada um de nós. Para Philip Roth, no céu estrelado vê-se o vasto cérebro do tempo, dando o mote ao professor, que termina a sessão com a afirmação de que as estrelas são indispensáveis.

Fico à espera da liberdade, do amor e da esperança, com a certeza do espanto.  

(fc/28março2025)

Escuela de Baile Rocio Columé.

 















De Andaluzia para o mundo, eis a Escuela de Baile Rocio Columé. Estoy encantada! Olé!

O flamenco é uma dança que não deixa margem para dúvida. Forte na expressão, vai buscar às culturas árabe, judaica, cigana e andaluza, a angústia, a tristeza, o medo, a alegria, a coragem, o arrojo e a determinação das gentes que foram resistindo - e ainda hoje resistem em diferentes partes do mundo - às perseguições e às fúrias de outros povos com sede de exclusão e morte. É, como a maior parte da expressão artística, uma forma de resistência.
Esta paixão andaluza afirma-se pelas palmas, pelo violão, por outros instrumentos que se acrescentem, às vezes por orquestras inteiras, por cantares quase primitivos (no sentido da proximidade à emoção pura), pelo sapateado que se impõe e pela firme graciosidade do bailar, sempre em desafio e com uma desarmante beleza. O flamenco é uma dança de corpo inteiro. Olé!
(fc/março/2025)

domingo, 5 de novembro de 2023

Gaza

 
















Tanto em Gaza como noutros lugares do planeta onde a guerra persiste por mão dos mais poderosos, racionalmente alimentados pela macro-economia das armas e dos recursos não renováveis (petróleo, diamantes, lítio, etc) e irracionalmente alimentados pela necessidade (des)humana do poder sobre o outro, levado à prática através da chacina dos mais fracos, daqueles que por razão ética ou por limitação económica, não se armaram até aos dentes, mas que, por má sorte, nasceram em lugares-alvo de mentes criminosas em corpos cobardes, gente que, por circunstâncias nem sempre claras, são chefes de países (eis o lugar perfeito para o serial killer), fisicamente protegidos por guarda-costas e politicamente apoiados por fantoches guarda-ódios, isto é, por uma comunicação social prostituída e por uma sociedade massivamente alienada que vê a guerra pela televisão como se de futebol se tratasse, gritando furiosamente vivas às mortes roubadas.
A história do mundo é uma história de guerras, ódios e valas comuns onde se amontoam corpos que não tiveram terra nem oração, não tiveram tempo para arrefecer. Quando nos roubam a vida, roubam-nos também a morte. Roubam-nos o tempo necessário para seguir em frente, para renascer a partir da vida que se perde. Tanto para a pessoa que perdeu o seu ente querido, como para a população vítima da guerra, como para o mundo no seu todo. Estamos perante crimes contra a humanidade à qual todos pertencemos. Cada um de nós é alvo desta e de todas as outras guerras. Tenhamos isso presente.
As mortes roubadas são hiatos no tempo. Todas somadas, podem vir a atingir uma dimensão tal, que se torne inultrapassável a lacuna entre o passado e o futuro da própria humanidade. Perdido estará o fio condutor. A bem de todos nós, importa não autorizar que alguém nos roube esse tempo, importa condenar em absoluto a guerra, seja ela qual for, seja ela onde for, seja ela por que motivo for. Na Palestina, na Ucrânia, na Síria, no Yemen ... fuck the war!
(fc/novembro2023)