sexta-feira, 1 de abril de 2016

A sombra das mulheres

















Título original:
L'Ombre des Femmes
De:
Philippe Garrel
Com:
Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Vimala Pons
Género:
Drama
Outros dados:
FRA/SUI, 2015, Cores, 73 min.



L'Ombre des Femmes, do realizador francês Philippe Garrel, conta-nos a história de uma dupla traição conjugal, catalisadora do ciúme, do anseio, do medo e do amor, entretanto esquecido por entre as paredes de papel florido e com marcas de humidade, de uma casa decadente.

Pierre e Manon, interpretados por Stanislas Merhar e Clotilde Courau, formam um casal aparentemente perfeito, com ela sempre na sombra dele, um realizador fracassado, melancolicamente entretido com a realização de um filme-documentário de um velho resistente francês. A realização deste trabalho sem recursos financeiros é, na verdade, o único elo do casal. O que sobra é o silêncio e a nostalgia, olhados a preto e branco, e a busca da felicidade momentânea em braços alheios.

O peso da cultura ocidental recai sobre ambos, marcando a forma como cada um encara a traição, a sua e a do outro. A amante dele utilizará o preconceito e o narcisismo masculino para prolongar a relação, bebendo da mesma consciência moral. Homem e Mulher, prisioneiros dos dogmas sociais, onde o certo e o errado variam de acordo com o género masculino e feminino. Dois sujeitos morais distintos.

Philippe Garrel mostra-nos um homem e duas mulheres, limpos de todos os excessos tecnológicos e ruídos populares. Tão reduzidos à sua existência que saímos do cinema sem ter a certeza de termos visto algo mais do que uma história banal. A ironia do filme bate-nos mais tarde, no silêncio da reflexão, revelando subtilmente a essência das mulheres num mundo que insiste em as manter na sombra da sua própria intimidade.


FC/Abril2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

Falemos da Lula, já que insistem
















A Lula engrossa a fileira dos Molusca, rapaziada invertebrada, às vezes com duas conchas, outras vezes com uma ou então nenhuma. Tem um corpo macio, suportado por uma casca interna, parecida com a pena da ave. Também como as aves, mas não o suficiente para nos confundir, a Lula apresenta uma espécie de bico na boca, a rádula quitinosa, muito útil para rasgar pequenos peixes, camarões, caranguejos e outras lulas, que caça impiedosamente. Dois dos 10 tentáculos estão transformados em fortes mandíbulas, que a natureza não brinca em serviço.
   
Ao contrário do caracol, que tem o pé na «barriga» e se desloca com a maior das calmas, a Lula tem os pés transformados em tentáculos, directamente ligados à cabeça. Portanto, rápida na reacção e ágil na locomoção. Em caso de ataque, liberta pigmentos na água confundindo os predadores. Também tem a capacidade de se camuflar com diferentes cores, a ponto de não se dar por ela. 

O corpo é hidrodinâmico e move-se por propulsão a jacto deslocando-se para trás, por vezes em alta velocidade, surpreendendo os peixes mais próximos. O nome mais certo para a Lula seria Lá-vai-Jacto.

O aspecto mais curioso da sua biologia é o facto de morrerem depois do acasalamento. O amor mata, neste caso. Ele e ela. À conta disso, têm uma vida muito curta. A natureza nunca explicou a vantagem biológica das paixões fatais. 

Resta-me dizer que a Lula é parente próxima do cerebral Polvo, de excelente visão; dos tímidos Chocos, cuja arte é a camuflagem; e do Náutilo, que tem a Via Láctea desenhada na concha e guarda em si a precisão matemática. Um animal de outros tempos. 


FC/Março2016



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Metro Pole, em 20 passos














1. A vida fervilha nos túneis da cidade.
2. Entrecampos, entre pessoas (muitas).
3. A porta automática. 
4. Zip in Zip out, ao som do toque que lembra Psico (iii iii iii).
5. Tudo contente (os de dentro), foi ganha a primeira dificuldade.
6. Apneia em arrumação IKEA.
7. A Inércia é tramada quando nos faltam as mãos e os pés.
8. Campo Pequeno (ufa!).
9. Zip in Zip out, Zip in Zip out, Zip in Zip out (iii iii iii).
(até aqui tudo bem, é o normal)
10. Out. O comboio avariou (merda!)
(novidade: esgueirar-se da estação por entre uma mole mole de pessoas).
11. O metro seguiu vazio. Avaria?
12. Para que lado? Decisão importante.
13. Com licença, desculpe, perdão... avanço lento no sentido da saída.
14. Olha, chegou outro metro. À pinha.
15. Concentração na decisão tomada: EXIT.
16. Campo pequeno entre pessoas. É preciso avançar.
17. A inércia é diferente, fora do comboio.
18. Quase...quase .. ar livre! Que linda é Lisboa!
19. Guardar o Passe Social
20. Avançar a pé, na direcção de João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha de Oliveira Daun, que apesar de apontar com a sua mão direita para o horizonte, não gesticula direcções nem dança como o polícia sinaleiro. Trata-se do 1.º conde, marquês e duque de Saldanha. Outros tempos.

FC/17fevereiro2016
(publicado na revista A Morte do Artista n.º 4)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Nas mãos


















Nas mãos
(um plágio errante de Levantado do Chão, de Saramago)

Tão limpas como a fome
Mesmo quando sujas, limpas são
Desenhadas ao cabo da enxada, da foice e da gadanha
Oleadas que baste para não emperrar.
Mãos tristes

Não aprendem a escrever. Mas se o sabem
Apenas escrevem um nome e nenhum outro
A tortura não as quebra, nelas se guarda a esperança
Um papel. Uma decisão.
Mãos silenciosas

Trinta e três razões para abrir as mãos fechadas
Contrariar o destino. Nesse dia
Levantado e principal
Cada uma será uma grande flor.
Mãos reconciliadas


FC/Fevereiro2015

domingo, 24 de janeiro de 2016

A décima primeira candidata



Nestas Presidenciais, votem na 11.ª candidata. Cumpre todos os requisitos: amiga dos animais e das plantas, tem mandatária para a juventude que é do melhor e gosta de comer e beber. É a Maria Política.

Voz do povo (aqui representado por João Eduardo Ferreira): Eu repito! Voto em ti! Tens perfil, mandatária para a juventude e comes bolo-rei, travesseiros de Sintra, pastéis de feijão Torres Vedras, fofos de Belas, bonbons da Arcádia, Dom Rodrigos, Chanfana de Coimbra, Pão de Rala, Bolo do Caco, sarapatel da Portagem. Tudo isso em pleno espírito democrático. Vai uma trouxa das Caldas?


Maria Política a Presidente  (clique para ver o vídeo através do Youtube)







FC/Janeiro2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O teu sorriso

















É mais que certo
que o teu sorriso contém para lá de 29 músculos.
Compreende o corpo inteiro.
A alma também.

Forte, determinado, afirmativo.
É guardião das pessoas que te abraçam, em memória
e exigente acolhedor de possibilidades futuras.
Um traço de carácter.

Como as tuas mãos o serão,
quando percorrerem músculos e tendões,
em busca do azimute certo.
Da ars medicina.

É mais que certo
que tal arte se reflectirá no teu sorriso,
confirmando a paixão.
Condição necessária e obrigatória em qualquer profissão.



Escrito para a Marta Pina Fernandes, quando completou o curso de Fisioterapia. 
FC/Junho de 2015

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

José Miguel















A música de David Bowie acompanha-me hoje, num dia muito difícil para a minha família. Oiço a sua música e pergunto-me, haverá vida em Marte (Morte)? Julgo que sim. Uma vida que se acrescenta à nossa memória, que dói também, na nossa saudade, que nos deixa perdidos os cinco sentidos, também o sexto. Mas, a acreditar na Lei Fundamental dos Afectos, que inventei agora, por necessidade imediata, nada se perde, tudo se transforma. Assim, uma vida perdida é uma vida que se ganha, de outra maneira. Uma espécie de renascimento. E sempre que nascemos, choramos. Por isso choramos tanto.
Marte recebe hoje David Bowie e José Miguel. Há vida em Morte, sim. Tem de haver. A vida partilhada não morre. Fica. Empurra-nos para a frente, na direcção de mais Vida. Ganhei hoje um pedaço dessa estranha forma de vida. Tem nome próprio, José Miguel. Obrigada, tio. Ser-lhe-ei sempre grata.

FC/11janeiro2016