segunda-feira, 19 de junho de 2017
Talbot
Quando se juntam bons amigos, o resultado é um CD de elevada qualidade. Se está por aqui, oiça:
sexta-feira, 3 de março de 2017
O Cotovelo
Fronteira entre braço e
antebraço, o cotovelo é a capital de vários músculos e ossos. A sua posição
estratégica liga a mão ao cérebro, sendo fundamental tanto no Body Pump do Luís Oliveira como no bitoque
da Dona Deolinda.
Imaginemo-lo Constantinopla, ponto
de encontro entre a Europa e a Ásia, capital de vários impérios e berço da
cristandade, até porque há turcos envolvidos. Não esqueçamos, porém, que no
mapa-mundi humano, o resto do território tem igual valor, não fosse o corpo que
habitamos uma estranha democracia.
Protegida pelo cacau em
percentagem arrojada, a cidade de Constantino, ou simplesmente cotovelo, apenas
receia a faixa 9, que se impõe ao som de Feel
so close, de Calvin Harris, e da voz do mestre Luís Oliveira: «E sobe e "dece"»... E a malta insiste e resiste.
Somos lápis de cor? Não! Somos músculo, cérebro e mão. Provamo-lo noutra faixa de outro exercício, entre o chão e o step, ao batermos as palmas em contratempo, anulando os tempos fracos da música e do músculo. Tap, tap, toc, toc, bi-toque, bi-toque. O mestre sorri, discretamente.
Somos lápis de cor? Não! Somos músculo, cérebro e mão. Provamo-lo noutra faixa de outro exercício, entre o chão e o step, ao batermos as palmas em contratempo, anulando os tempos fracos da música e do músculo. Tap, tap, toc, toc, bi-toque, bi-toque. O mestre sorri, discretamente.
Nem dor de cotovelo nem raivinhas
nem bifanas de Torres Vedras. Bitoque! Mas bitoque, só mesmo o da Dona Deolinda
(de Garvão, claro). O ovo vem da capoeira junto à linha do comboio que vai para
um Sul quase paralelo ao de Constantinopla. Sempre se conheceram galinhas por ali.
A batata veio da Cordilheira dos
Andes, em tempos muito idos. Hoje em dia, sobrepõe-se a todas as faixas e
lidera os pratos portugueses. Se lhe dessem oportunidade, a faixa 9 não lhe
escaparia. Quase tão redonda como o epicôndilo, a batata não sofre de
esquisitices e transmuta-se em palito, repousando por pouco tempo no prato
preparado pela Dona Deolinda. O bife é um mistério. Ninguém dá por ele
mas, depois, ninguém o esquece.
Se sorte tivermos, por entre
bebes e comes ouvir-se-á o cante entre amigos. O ponto, o alto e o coro, a
reforçar o forte sabor a Alentejo. E desengane-se o mais convencido, porque se
o cotovelo padecer de algum mal, perceberá o pobre coitado que terá igual
dificuldade a levantar quer o garfo da Dona Deolinda quer a barra de pesos do
Luís Oliveira.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Grisalho
Grisalho
rima com agasalho, com o aconchego das histórias de quem já viveu ou de quem
muito leu... Quase oiço os estalidos da lenha que aqueceu os meus avós, quando
pequenos se sentavam ao colo dos seus avós, por debaixo da chaminé alentejana,
em busca do calor grisalho.
Ser grisalho
é ser no tempo. Os cabelos brancos aparecem por entre os outros e marcam
posição. Irreverentes, desordenados, teimosos, fazem o que lhes dá na real gana
sem deixar de cumprir o seu papel ético e estético. Trazem novidade à
uniformidade.
Quem pintar estes sinais do tempo, trama-se. Os cabelos brancos são persistentes. Tornam a
aparecer pela raiz e todos juntos, num tom gozão. Em vez de um matizado sóbrio,
tem-se uma melena de barrinha branca.
Esta forma
dura de dizer "estamos aqui, pá!" põe as cabeças pintadas em triste
fúria, desesperadas por derramar mais tinta sobre as ideias, ferindo de morte a
estética capilar. O tempo e o ser, desbotados por pigmentos desconsolados.
Não é o
branco sinal de leveza? E não é a leveza tão necessária à imaginação, à
reflexão e até ao amor? Pois então. Grisalhos sejamos.
FC/27Dez2016
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
A lição de Ténis
Na mão, a raquete (tensão 26 ou outra qualquer, cada
um saberá melhor), pronta para o rápido diálogo com o Outro e consigo próprio
(não raro ouvirmos a conversa de cada um com o seu Eu, aos gritos). Com gesto
técnico ou aproximado, servimos para o campo que pretendemos atacar sem nunca descurar
o campo que nos pertence defender.
O diálogo pode prolongar-se por várias batidas, se
não deixarmos a bola tocar duas vezes no chão do nosso campo (resposta
atrasada) ou cair fora do campo de jogo do adversário (resposta precipitada). Nas
trocas de bolas, manter-se sereno, atento e determinado, até deixar o Outro sem
resposta. Nos momentos sobrantes também, pois o trabalho, que a Física define
como a força necessária para deslocar um objecto do ponto A para o ponto B, e
que aqui definimos como a força necessária para formar um campeão, exige transpiração
e inspiração contínuas.
Assimetrias quase perfeitas entre destros ou
canhotos. Simetrias quase perfeitas entre destros e canhotos. Jamais desviar o
olhar da bola, pois as distracções balançam a pontuação entre os 15, os 30, os
40 ou jogo perdido. Não há empates ou lugar para dúvidas, o vencedor é-o com a
diferença de dois pontos, dois jogos ou dois sets. Ou diferença maior, se assim
se decidir.
Todos os instantes solicitam decisões. Pega de
direita, pega de esquerda ou pega martelo? Surpreender o Outro com um vólei?
Devolver a bola num potente smash? As
bolas com efeito são matreiras… topspin,
underspin, sidespin? É preciso saber ter os pés bem assentes no chão e
flectir as pernas sem falsa humildade. Estabelecer objectivos reais.
A rede e as linhas marcam os limites da nossa
capacidade física e mental. Por entre elas, autodisciplinamo-nos, evoluímos no
jogo, ganhamos consciência. Antecipar o lance do outro, perceber-lhe as
fraquezas mas, sobretudo, reconhecer as nossas e ultrapassá-las. Só a nós
próprios poderemos pedir contas, se perdermos o debate ou se não aprendermos
nada. Não há outros culpados.
Num jogo social, somos simultaneamente juízes e
apanha-bolas. É preciso confiar no juízo do Outro quando nos anuncia uma falta (as
vitórias com batota não têm sabor) e manter as bolas suplentes no lugar certo,
sem prejuízo para o jogo ou para o Outro.
A cordialidade e a generosidade distinguem os bons
jogadores.
Desde a movimentação do corpo até ao batimento, não
esquecendo a posição em campo, tudo contribui para aumentar a vantagem em
relação ao adversário ou recuperar pontos perdidos. O tempo não é factor
limitante, antes pelo contrário. Nem a idade. Nem tampouco a pontuação, pois todos
os resultados são reversíveis até à concretização do match point.
O bom humor espreita algumas batidas, roubando, por
momentos, importância à pontuação. Mas o que seria a vida sem os momentos
bem-dispostos?
Como em tudo, a experiência dar-nos-á a sabedoria
para apreender a complexidade do desafio. Em superfícies
sintéticas, de cimento, terra batida, relva ou quaisquer outras.
FC/Nov2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
A Lei de Thierry
A Lei do Mercado (2015),La loi du marché (original title)
De
Stéphane Brizé
Com
Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller
FRA, 2015, Cores, 93 min
O filme «A Lei do Mercado», de Stéphane Brizé, oferece-nos uma
imagem do mundo actual, a partir de fragmentos da vida de um homem comum. Ao
individualizar a história através de uma proximidade quase intimista e tão
perfeitamente estética com a personagem principal, o autor universaliza. Somos cada um de nós, ali, confirmado pela presença de actores não-actores que participam no
filme e lhe conferem uma dimensão real. É um filme-documentário do nosso mundo, da
nossa vida. É o nosso filme.
Thierry, interpretado pelo extraordinário Vincent Lindon,
tem 50 anos, é casado, tem um filho adolescente com paralisia cerebral, está desempregado,
desiludido, angustiado, derrotado, porém, moralmente resistente e socialmente resiliente.
Tem o apoio afectivo e efectivo da mulher, personagem interpretada por Karine de Mirbeck, e
a alegria do filho Mattthieu, jovem aspirante a biólogo, interpretado por
Matthieu Schaller. A esfera privada mantém-se harmoniosa, apesar de todas as
ameaças financeiras exteriores. Há intimidade e solidariedade, projectos em
comum. É o nicho da resistência.
Thierry vive uma crescente perda do mundo, onde a vacuidade
de uma linguagem híbrida, entre a pseudo-moral e as noções-básicas-de-economia, inadequada à expressão normal da fala e do raciocínio,
anula a força dos valores absolutos e universais da sociedade (como por exemplo,
o bem e o mal) e o valor intrínseco das coisas e dos objectos. Tudo é
vulnerável, de acordo com a relatividade das relações sociais e do comércio, bem conduzida
pela Lei do Mercado.
O centro de emprego, os cursos de formação e as reuniões
sindicais por onde Thierry passa, não oferecem respostas. São lugares
corrompidos pelos valores do mercado, utilizando as pessoas como objecto de
troca comercial. E quanto maior for o número de trocas, maior será a acumulação
de riqueza. Eis a Lei Fundamental do Mercado, que vem substituir a burocracia
na sua bem sucedida tarefa de incluir no sistema totalitário tudo o que é
individual, anulando-o.
No filme não há pessoas boas ou más, apenas pessoas comuns.
Porém, pressentimos um mal que se desenvolve até extremos inaceitáveis e se
alastra como se fosse uma praga incontrolável, contagiando trabalhadores,
empregadores e consumidores, as categorias actuais mais proeminentes na
sociedade. Estão criadas as condições para a prática da banalidade do mal, não
sob a forma violenta que assistimos na Europa do século XX, mas numa outra
forma ainda por definir, que empurra os homens para níveis próximos da
animalidade, onde se limitam apenas à imperiosa necessidade de garantir a
própria sobrevivência.
Os homens vivem perdidos
numa solidão organizada das massas, esmagados pela roda dentada do trabalho e
do consumo, conformados perante o gigantismo das administrações que comandam a
sua existência. Mudos, sem Verbo. Não os move a paixão ou o ódio, próprios da
vida em comum. Apenas o medo de perder o emprego.
O que o filme de Stéphane Brizé nos mostra, para além do
jogo perverso do mercado do trabalho, é a capacidade humana de ajuizar e
decidir, ainda que em circunstâncias difíceis. Thierry fá-lo ao longo do filme,
bem visível na expressão do seu olhar, enquanto vai correspondendo às propostas
dos empregadores. No final do filme, perante uma situação-limite moral, Thierry
reage em conformidade com o seu carácter, ou seja, age, pois recupera a autoria
das suas acções. Sairá derrotado? É a pergunta que fica no ar.
Uma nota final: o filme foi feito com um orçamento baixo, de
modo a que os eventuais lucros fossem condignamente divididos por toda a
equipa. Sem ordenado para o realizador e actor principal, sem iluminação e sem
maquilhador, entre outras poupanças.Uma verdadeira economia financeira sem contenção moral, que impregnou
o filme com uma aisthésis
particularmente bela. A fotografia é de Éric Dumont. Terão, por isso, saídos derrotados?
FC/Maio2016
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Fico assim sem você
Para o João Eduardo Ferreira
Almoço sem batata
Conversa sem vinhaça,
Sou eu, assim sem você
Sou eu, assim sem você
...
Ausência na open-jaula
Ginásio sem "Fernanda Paula!"
Sou eu, assim sem você
...
Porque é que tem de ser assim
A bicharada não tem fim
És preciso a todo o instante
Nem mil aves cantantes
Vão poder passar sem ti
...
Eu não resisto sem saber o Quê
Eu não insisto sem o meu amigo
São muitas horas sem poder escrever
A caneta está de mal comigo.
Porquê? Porquê?
Ginásio sem "Fernanda Paula!"
Sou eu, assim sem você
...
Porque é que tem de ser assim
A bicharada não tem fim
És preciso a todo o instante
Nem mil aves cantantes
Vão poder passar sem ti
...
Eu não resisto sem saber o Quê
Eu não insisto sem o meu amigo
São muitas horas sem poder escrever
A caneta está de mal comigo.
Porquê? Porquê?
FC/Abril2016
[Texto inspirado em Fico assim sem você, de Adriana Calcanhoto]
quinta-feira, 7 de abril de 2016
A sombra das mulheres (parte II)
Retalio o belíssimo texto de João Eduardo Ferreira, que reflecte com precisão uma das partes do filme. Direi apenas que não é, na minha opinião, a principal ou a mais importante.
Na minha perspectiva, Phillippe Garrel coloca a tónica da história não na intimidade de ambos mas na intimidade de cada um dos protagonistas, em separado. O que interessa não é o motivo da traição mas o que acontece depois disso.
O cineasta oferece-nos um olhar lacónico sobre a intimidade feminina e a intimidade masculina, separadas pela dupla traição conjugal ou separadas porque assim o foram sempre, por definição, por liberdade de cada um, porque são duas pessoas e não uma, apesar de partilharem as mesmas pulsões, os mesmos afectos, as mesmas paixões, os mesmos desencantos, amando-se por igual. Eis a primeira questão.
A reacção de cada um dos protagonistas à traição do companheiro parece cumprir os preceitos do preconceito social. No homem, permanece o eixo narcísico em torno do qual se agita agora um ciúme obsessivo em relação à mulher. Não questiona, em momento algum, a sua própria traição, que apenas abandona por não conseguir suportar-se enquanto homem traído. Na mulher, o perdão é imediato e o desejo da normalidade também. Por cultura ou maturidade, ficará ao critério do espectador.
Phillippe Garrel não dá respostas. Coloca-nos perante dois sujeitos morais distintos confrontados com a mesma situação, onde o certo e o errado parecem variar de acordo com o género masculino e feminino. O cineasta utiliza a subtileza e a ironia para trazer à tona (ou aprofundar, como queiramos) a dupla moral e os dogmas sociais que a suportam. Dois sujeitos morais distintos? Eis a segunda questão.
O abraço final é a resposta a todas as questões.
FC/Abril2016
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