quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A chaminé (2)




No horizonte rasgado por árvores maestrinas do silêncio
por vezes verde, outras vezes amarelo ou então castanho
(o escritor adivinhou-lhe o vermelho de sangue sangrado)
eis que surge a chaminé, atrevimento do monte alentejano.
A poeira da estrada indica o caminho 
até onde o branco da cal se agiganta em forma de casa, 
alcova do fresco da noite e do cheiro humano. 
Tem o postigo aberto. Entremos.
Na cozinha, bebe-se água por um cocharro comum, 
fragância de barro na cortiça aveludada.
A mesa e os bancos corridos ocupam o centro do lugar
mas a chaminé é rainha. Anfitriã extrema.
Aberta ao infinito, convida ao encontro, à poesia.
Oferece cadeiras de palha e banquinhos de tripé, 
assinatura  do homem.
Também os sabores da terra numa fatia de pão,
gentileza da mulher.
Todos presentes. Por vezes uns, por vezes outros. 
A hierarquia nunca é esquecida.
Grandes conversas, pequenas conversas, 
conversas que podem mudar o mundo. 
Lugar de utopia,
conspirações, segredos, tertúlias e paixões 
mitos longínquos, histórias recentes, esperanças futuras.
Outro é o tempo, outra a medida… 
O Alentejo canta.
Debaixo da grande chaminé, 
no silêncio do lume de azinho, 
não há frio, não há calor, 
há comunhão.


FC/7janeiro2015


[versão modificada de A Chaminé (FC/2009)]

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