quinta-feira, 17 de março de 2011

O método Adolf












Em nome de uma crise mais do que económica, inventou-se uma lei que permitiu o agrupamento das escolas de ensino regular, facilitando-se, dizem, a gestão daquilo que deveria ser o pulmão de um povo/nação: a educação. Foi a oportunidade para se confundirem as coisas e meter tudo no mesmo saco. E na confusão oportuna, em nome da lei que regulamenta os agrupamentos mas à sua revelia, pois o processo não cumpriu os procedimentos legais ali previstos, a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Alter do Chão (EPDRAC) foi anulada na sua diferença.

Considerada a primeira do género, a EPDRAC forma jovens técnicos de gestão equina e cinegética e, em paralelo, possibilita a formação de monitores de equitação, reconhecidos pela Federação Equestre Portuguesa. Tem dimensão nacional e reconhecimento internacional, comprovados pelos alunos que recebe de todos os pontos do país, incluindo ilhas, e de Espanha.

Parceira nas diversas formas da arte equestre, desde a arte de montar a cavalo até ao apuramento genético da raça lusitana, a EPDRAC, enquanto formadora de jovens especializados nesta área, é reconhecida pelos seus pares, a Coudelaria de Alter, a Coudelaria Nacional e a Escola Portuguesa de Arte Equestre, apenas para citar as entidades públicas que partilham a responsabilidade de preservar o património genético do cavalo lusitano, cuja importância é indiscutível no contexto da biodiversidade genética animal, tanto a nível nacional como a nível mundial, reforçado pelo património histórico que lhes está associado e que importa sublinhar.

A EPDRAC é, por todas as circunstâncias, única e irrepetível. A proximidade física que existe entre a Coudelaria de Alter-Real e a EPDRAC conferem a esta escola profissional um carácter distinto. Ali, a partilha de vivências e ensinamentos entre professores e alunos vai muito para além das paredes da sala de aula ou mesmo da escola. Um exemplo do lema “todos por um e um por todos”, no cumprimento da sua essência. Um exemplo também do verdadeiro desenvolvimento rural, cujo maior testemunho é o povo de Alter do Chão, que acolhe a escola no seio da sua família.

Para esta vila alentejana, a EPDRAC é uma mais-valia socioeconómica, pois traz ao concelho cerca de centena e meia de jovens que aqui se instalam e vivem durante nove meses, e uma mais-valia cultural, na medida em que a escola profissional dinamiza o que distingue esta terra: o cavalo de Alter. Esta distinção promove o prestígio e a identidade do povo de Alter do Chão.

Num processo vertiginoso e arrebatador, desrespeitando o regime jurídico das escolas profissionais no qual se enquadra, a EPDRAC passou a ser vista e tratada como uma escola de ensino regular, confundida com a escola-mãe (sede do agrupamento), que é indistinta das restantes escolas de ensino regular e cujo nome se encontra no fim da lista do ranking nacional de escolas portuguesas. O não cumprimento dos procedimentos legais, que são o garante da legitimidade da criação e da gestão dos agrupamentos escolares, traduziu-se, inevitavelmente, na atribuição de um cheque em branco aos gestores do agrupamento que, alheios ao projecto pedagógico da EPDRAC, se comportaram como uma comissão desinstaladora da escola profissional. Sob a sua gestão, os alunos da EPDRAC passaram a integrar, de forma compulsiva, a Escola EB 2,3/S Padre José Agostinho Rodrigues.

Por incompetência ou não, fingiu-se que a EPDRAC era a Escola Secundária de Alter do Chão. Por coincidência ou não, foi vedada a possibilidade de novas turmas, não obstante o número suficiente de pré-inscrições na EPDRAC. Perante a indignação dos pais que reclamaram a identidade da EPDRAC, a equipa gestora do novo agrupamento foi substituída. Aparentemente, a escola profissional recuperará a sua identidade e autonomia. Mas insiste-se na EPDRAC agrupada. O cheque continua em branco…

A distância entre os projectos educativos da EPDRAC e do ensino regular marcará a marcha para o isolamento da escola relativamente aos seus pares, que pertencem ao mundo da equitação e da cinegética e não ao mundo da escolaridade não profissional. A EPDRAC perderá a vertente profissional e a vertente de desenvolvimento rural. Dentro das malhas da indistinção e sujeita ao regulamento interno da escola mãe, a EPDRAC deixará de ter sentido para a Coutada do Arneiro. Outrora uma oportunidade… agora simplesmente uma despesa. A passos rápidos, a EPDRAC será anulada do sistema. Findar-se-á à pena de um qualquer burocrata em apenas alguns (poucos) anos lectivos. Cumpra-se!

Mas aqui não se cumpriu a lei. Mantém-se, por isso, a esperança de retorno.

Reparemos no método que conduz à anulação da distinção desta escola de excelência. Aplicado de uma forma algo distraída mas coerciva, este método, e falamos apenas do método, faz lembrar um outro: o de Adolf. O Adolf chamava-se Hitler e o seu método baseava-se na anulação da distinção. Neste caso, aplicado directamente às pessoas e no exímio cumprimento da lei alemã, alterada em função do método. A lei alemã legalizou lentamente, ao longo dos anos que antecederam a 2.ª Guerra Mundial, a inexistência de uma igualdade jurídica que garantisse os direitos de um povo distinto. O método aplicou-se aquilo que jamais alguém poderia imaginar: ao próprio povo alemão. Morreram mais de 6 milhões de judeus, entre outros.

A distinção é uma capacidade exclusivamente humana, sendo a esfera pública e política o único garante da possibilidade de distinção. A esfera económica é outra coisa. Em nome da nossa humanidade, estejamos atentos.

FC/Janeiro2011

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