O tempo confinado fica líquido e bebe-se.
- Viva o trabalho!
- Viva!
Está feito. Seguem felizes os doutores-formiguinha e os engenheiros-formiguinha para os seus quartos, que o fim-de-semana ainda agora começou e é tempo de tecer matéria para que não se diga que a montanha é estéril. Retomam a dinâmica patenteada pelos tempos covid (sem hora e a meio-corpo, a partir de casa), enquanto os trabalhadores-cigarra se recolhem ao canto habitual, com descontos de 50% e cada vez mais isolados. Como convém.
Emails de estilo são postos a circular em carreirinha e convocam-se vídeo-chamadas whatsapp teams skype google que antecedem e preparam vídeo-chamadas zoom cisco webex go to meeting, onde se apresentam não-decisões, o pó-de-arroz perfeito para o teatro dos especialistas-de-última-hora. Se tudo falhar, não faz mal, o que importa é a espuma do frenesim, autenticada com louvores dos próprios aos próprios.
Nesta vida desembestada não há tempo para tardança, razão
pela qual a palavra Excelência se viu reduzida a metade: Excel. Aqui não há dores de crescimento, há certezas. Quem não alinhar no folclore da Corte, será proscrito.
Neste primeiro de Maio, para além do direito ao trabalho em
condições dignas, clamo também pelo direito à competência e à realização
profissional. A todos por igual.
- Viva o trabalho!
- Viva!
FC/Maio2021
Diferente
(escreve Vítor Encarnação)
Dentro de mim nunca sou o que os outros veem, os espelhos
não me refletem, as fotografias não me mostram, dentro de mim, no conluio que
eu arranjei entre mim e a idade, vejo-me sempre de outra forma, os meus olhos
veem o que querem, não sou dono deles, eu minto-lhes e eles mentem-me, estão
cegos de realidade, estão vazios de aceitação, enganam-me, eu peço-lhes para
eles me enganarem, e eles fazem que não veem o esboroar do tempo, inventam que
não o veem a passar e a deixar rugas e cabelos brancos e cansaços e por
causa de uma vida a verem-me todos os dias, os meus olhos estão viciados em
mim, eu sou o menino dos meus olhos. Dentro de mim sou sempre mais novo, sou
eterno, parece-me que não hei de acabar nunca, não conheço mais nada, não me
conheço de outra maneira, há anos que trago comigo este corpo, este pensamento,
estas cicatrizes, estes ossos, estas mãos, esta pele, esta boca, estes olhos
mentirosos, tudo o que tenho por dentro, um coração que nunca vi. Ter-me-ão
crescido as mãos, os ossos e o pensamento, ter-se-me-á rasgado a pele, fechado
a boca, partido o coração, o tempo terá andado teimoso de volta de mim,
tentando pôr-me luz nos olhos, mas eu vejo-me ainda moço, vejo-me como dantes,
vejo-me como fui, vejo-me incapaz de me ver como dizem que sou agora. Se eu
pudesse, os meus olhos é que tinham razão.
Igual
(escreve Fernanda Cunha)
A menina dos meus olhos surpreendeu-se com a confissão que acabou de ler e por momentos receou que a sua meninice não fosse verdadeira, mas possível resultado de um conluio com a mulher que a olha agora através do espelho. Teriam elas o mesmo desacordo sobre o vagar do tempo que faz crescer a pele, endurece as unhas, inflama os ossos e branqueia o cabelo? Conhecem-se desde pequenas, não escondem segredos uma da outra, mas a verdade é que quando se encontram demoradamente, a menina descobre novidades no corpo da mulher. Às vezes até por dentro, no coração que não se vê. Nisso aquele menino tem razão. A menina dos meus olhos aproveitou o facto de estarmos frente a frente e perguntou-me se vivíamos a ilusão combinada de ser meninas. Respondi-lhe que não há mentira na menina dos olhos. Que olhasse bem de frente e procurasse rugas em si. A menina dos olhos não tem rugas. O tempo não a envelheceu, continua a mesma menina. E que também eu, feita mulher, sou menina ainda. As marcas do tempo no meu corpo, essas sim, não são verdadeiras, são fruto da imaginação, pura ficção. São histórias grafadas na pele. Qualquer parecença com a realidade é pura ironia, pois o tempo, todos sabemos, tem lá as suas manhas. Engana bem.